24 maio 2026

 

"Demian"  de Herman Hesse

Flávio França

 



É um romance que fala sobre o desenvolvimento moral de Sinclair, lembrando um romance de formação (bildungroman). O livro foi publicado originalmente em 1925, esta minha leitura, então, se deu 100 depois da publicação original. É o século XX ficando pra trás!!!

 A história de Sinclair é contada por ele mesmo, em primeira pessoa. Dentro dessa história está a presença de Demian, um misterioso rapaz, estranhamente maduro desde a sua pré-adolescência.

Impossível não lembrar da semelhança etimológica do nome "Demian" com o "Daimon" de Sócates-Platão, uma entidade que "baixava" no filósofo, permitindo-lhe  aprofundar o diálogo para regiões indigestas para o ouvinte. Demian se parece com Daimon socrático, ele aparece e transforma a percepção  da realidade de Sinclair.

Tudo começa com uma lorota. Sinclair, pré-adolescente, para parecer importante diante dos colegas, inventa der roubado um pomar maçãs. Um colega, Kromer, passa a chantageá-lo dizendo que o entregaria para o dono das maçãs se ele não pagasse 2 marcos. Diante da impossibilidade de pagar, Kromer faz Sinclair passar por inúmeras humilhações. Sem saber como se livrar de Kromer,  surge Demian.

Inicialmente Demian discutia aspectos da aula de religião, principalmente o tratamento dado a Caim. Demian defende que Caim não  deve ser visto como um vilão, mas antes como um herói, que ousou matar o irmão por amor ao Deus. Essas pessoas capazes de atos extremos para exaltar seus valores, essas pessoas apresentam também  em suas frontes a marca que Deus indica esse descendência.

 Tal interpretação deixou Sinclair atordoado e fez a admiração pelo colega crescer. Tanto que confessou ao colega seu martírio provocado por Kromer. Demian então  toma as dores do amigo e consegue, de forma não  explicada, que Kromer deixe Sinclair em paz.

 Os dois amigos se separam para completar o ensino médio.em lugares distintos. Neste período, Sinclair escreve cartas ao amigo, mas elas não  são respondidas. Abandonado, Sinclair se entrega ao vício, embebeda-se frequentemente e descuida dos estudos, chegando a ser ameaçado de expulsão   do colégio.  Sinclair se recupera, encontrando apoio na arte, na pintura. Uma produção  importante foi a do pássaro que ele enviou para o amigo, numa representação da superação de dificuldades para conquistar a liberdade.

 Outra pintura importante é a tentativa de representação de uma mulher, cuja beleza que o encanta. A mulher idealizada é denominada Beatrice, uma referência à mulher adorada por Dante. Ao terminar o desenho, a face adorada lembra muito as feições de Demian.

 Neste período de retomada, aparece uma personagem interessante: Afonso Beck. Este rapaz admira Sinclair e passa a segui-lo.  Em grande depressão, ele tenta se matar, mas é impedido por Sinclair. Os dois rapazes tem uma condição em comum: os dois são celibatários. Ao expressar suas preocupações com a dificuldade em manter-se celibatário, Beck fica decepcionado com a posição de Sinclair.sobre isso é se afasta do protagonista.

 

Em um dos encontros com Demian, Sinclair toma conhecimento de Abraxas, um Deus que reúne o bem e o mal na mesma pessoa. em outro período distante do amigo, Sinclair conhece Pistórius, um filósofo que se dedica ao culto ao Deus Abraxas, através do estudo do passado e da mitologia. Pistórius deseja ser reconhecido como sacerdote da religião,  Sinclair o confronta com sua tendência e se fixar no passado e na mitologias não acrescenta nada de novo ao conhecimento. Diante dessa realidade, Pistórius fica magoado e os dois se separam.

 Abraxas é conhecido através  dos Papiros Mágicos Gregos, reunidos pelo diplomata e traficante de antiguidades Jean D'Anastasi. Nestes textos, Abraxas é um Deus zoológico dotado de Cabeça de galo e pernas de serpentes,  sendo invocado para esclarecer  "questões importantes num movimento duplo: de um lado traçar um quadro de atribuições e discursos em torno desta figura enigmática, do outro considerar que essas fórmulas esclarecem a respeito do.ambiente mágico religioso dos papiros, as características da magia antiga ali preservada e a.relação entre a clientela dos magos, seus anseios e desejos (cf. Diblasi Neto, 2015). A situação  de Pistórius no romance lembra a do pesquisador D'Anastasi,  assim como os arqueólogos de forma geral, presos no passado e no estudo de conceitos e mitos históricos, sem contudo pertencer a eles. Pistórius deseja ser um sacerdote de Abraxas, mas apenas consegue repetir os velhos ensinamentos e os mitos de forma distante.

Já na Universidade, Sinclair volta a Encontrar Demian. Neste período ele passa a conviver com a mãe de Demian, Eva, que é a encarnação da mulher ideal  que Sinclair tentou  representar. O jovem se apaixona pela mulher e passa a frequentar a casa, que é ornamentada pela pintura do pássaro que Sinclair enviou para o amigo.

Esse momento  idílico em que Sinclair priva da intimidade de Eva e Demian é quebrado com a irrupção da Guerra. Os dois amigos se separam e vão  enfrentar o desafio. Ao se despedir de Sinclair na estação, Eva o beija na boca.

Na frente de batalha, Sinclair é gravemente ferido e é transferido para um hospital, onde os pacientes ficam em colchões no chão. Ao se despertar, ainda grogue, Sinclair percebe que Demian está ao seu lado, também ferido.  Os dois amigos se beijam, um beijo com gosto de sangue, e Demian afirma que vai embora e que agora ele estará dentro de Sinclair. Quando Sinclair acorda, ao seu lado está uma pessoa desconhecida: o pássaro libertou-se.

A homossexualidade é pressentida ao longo do romance. A misoginia do celibatário Sinclair, a paixão  ideal dele sendo uma figura de Demian feminizada, o ideal de beleza da mulher com feições masculinas. Será  que, entre as humilhações infligidas pro Kroner contra Sinclair não  incluía favores sexuais? Será que a revolta de Beck não seria o fato de Sinclair suportar o celibato com outros homens? Apenas suspeitas....

Para Silva e Costa (2024) há um desejo homoerótico latente entre os dois amigos, mas neste romance a homossexualidade  é equiparada a uma religião, em que Demian pode ser considerado a própria religião em si. A paixão  de Sinclair por Eva, passa por um relacionamento edipiano que pode ser a expressão do desejo por um relacionamento socialmente aceitável, mas está recaída de Sinclair é "curada" pelo beijo final trocado com Demian.

Para Palmer (1997) o triângulo afetivo entre Sinclair, Demian e Eva  representam desejos homo e heterossexuais. O desejo homossexual de Sinclair por Demian é mediado por Eva, a mãe masculinizada de Demian. O beijo dado por Demian em Sinclair   no final do romance foi enviado por Eva unindo assim todo sentimento erótico de Sinclair.

 

lido em maio 2026

 

Referência

Diblasi Neto, Ítalo. "Quando meus lábios sacerdotais disserem palavras secretas": Abraxas, magia e política nos papiros gregos. Revista de estudos greco-latinos, n. 5, p..131-146, 2015.

Hesse, Demian. Demian. trad. Barroso, Ivo. 37a. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

Palmer, Craig. The significance of homossexual desire in modern German Literature. In Palmer, Graig. Cap. 5 of PhD Thesis. Saint Louis: School of arts and Sciences of Washington University.

Silva, Yasmine; Costa, Margareth. Representações de homoafetifidade  não  correspondida no século XX. Interdisciplinar, v. 42, p. 23-25, 2024.