"Demian" de Herman
Hesse
Flávio França
É um romance que fala sobre o desenvolvimento moral de
Sinclair, lembrando um romance de formação (bildungroman). O livro foi
publicado originalmente em 1925, esta minha leitura, então, se deu 100 depois
da publicação original. É o século XX ficando pra trás!!!
Impossível não lembrar da semelhança etimológica do nome "Demian" com o "Daimon" de Sócates-Platão, uma entidade que "baixava" no filósofo, permitindo-lhe aprofundar o diálogo para regiões indigestas para o ouvinte. Demian se parece com Daimon socrático, ele aparece e transforma a percepção da realidade de Sinclair.
Tudo começa com uma lorota. Sinclair, pré-adolescente, para parecer importante diante dos colegas, inventa der roubado um pomar maçãs. Um colega, Kromer, passa a chantageá-lo dizendo que o entregaria para o dono das maçãs se ele não pagasse 2 marcos. Diante da impossibilidade de pagar, Kromer faz Sinclair passar por inúmeras humilhações. Sem saber como se livrar de Kromer, surge Demian.
Inicialmente Demian discutia aspectos da aula de religião,
principalmente o tratamento dado a Caim. Demian defende que Caim não deve ser visto como um vilão, mas antes como
um herói, que ousou matar o irmão por amor ao Deus. Essas pessoas capazes de
atos extremos para exaltar seus valores, essas pessoas apresentam também em suas frontes a marca que Deus indica esse
descendência.
Em um dos encontros com Demian, Sinclair toma conhecimento
de Abraxas, um Deus que reúne o bem e o mal na mesma pessoa. em outro período
distante do amigo, Sinclair conhece Pistórius, um filósofo que se dedica ao
culto ao Deus Abraxas, através do estudo do passado e da mitologia. Pistórius
deseja ser reconhecido como sacerdote da religião, Sinclair o confronta com sua tendência e se
fixar no passado e na mitologias não acrescenta nada de novo ao conhecimento.
Diante dessa realidade, Pistórius fica magoado e os dois se separam.
Já na Universidade, Sinclair volta a Encontrar Demian. Neste período ele passa a conviver com a mãe de Demian, Eva, que é a encarnação da mulher ideal que Sinclair tentou representar. O jovem se apaixona pela mulher e passa a frequentar a casa, que é ornamentada pela pintura do pássaro que Sinclair enviou para o amigo.
Esse momento idílico em que Sinclair priva da intimidade de Eva e Demian é quebrado com a irrupção da Guerra. Os dois amigos se separam e vão enfrentar o desafio. Ao se despedir de Sinclair na estação, Eva o beija na boca.
Na frente de batalha, Sinclair é gravemente ferido e é
transferido para um hospital, onde os pacientes ficam em colchões no chão. Ao se
despertar, ainda grogue, Sinclair percebe que Demian está ao seu lado, também
ferido. Os dois amigos se beijam, um
beijo com gosto de sangue, e Demian afirma que vai embora e que agora ele
estará dentro de Sinclair. Quando Sinclair acorda, ao seu lado está uma pessoa
desconhecida: o pássaro libertou-se.
A homossexualidade é pressentida ao longo do romance. A misoginia do celibatário Sinclair, a paixão ideal dele sendo uma figura de Demian feminizada, o ideal de beleza da mulher com feições masculinas. Será que, entre as humilhações infligidas pro Kroner contra Sinclair não incluía favores sexuais? Será que a revolta de Beck não seria o fato de Sinclair suportar o celibato com outros homens? Apenas suspeitas....
Para Silva e Costa (2024) há um desejo homoerótico latente entre os dois amigos, mas neste romance a homossexualidade é equiparada a uma religião, em que Demian pode ser considerado a própria religião em si. A paixão de Sinclair por Eva, passa por um relacionamento edipiano que pode ser a expressão do desejo por um relacionamento socialmente aceitável, mas está recaída de Sinclair é "curada" pelo beijo final trocado com Demian.
Para Palmer (1997) o triângulo afetivo entre Sinclair,
Demian e Eva representam desejos homo e
heterossexuais. O desejo homossexual de Sinclair por Demian é mediado por Eva,
a mãe masculinizada de Demian. O beijo dado por Demian em Sinclair no final do romance foi enviado por Eva
unindo assim todo sentimento erótico de Sinclair.
lido em maio 2026
Referência
Diblasi Neto, Ítalo. "Quando meus lábios sacerdotais
disserem palavras secretas": Abraxas, magia e política nos papiros gregos.
Revista de estudos greco-latinos, n. 5, p..131-146, 2015.
Hesse, Demian. Demian. trad. Barroso, Ivo. 37a. Ed. Rio de
Janeiro: Record, 2006.
Palmer, Craig. The significance of homossexual desire in
modern German Literature. In Palmer, Graig. Cap. 5 of PhD Thesis. Saint Louis:
School of arts and Sciences of Washington University.
Silva, Yasmine; Costa, Margareth. Representações de
homoafetifidade não correspondida no século XX. Interdisciplinar,
v. 42, p. 23-25, 2024.



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