O lobo da estepe de Hesse
“LOBO DA ESTEPE” de
Hermann Hesse
Flávio França
Este foi o livro que alçou nome
de Hermann Hesse como um dos principais escritores do século XX. Ele tem uma
escrita complexa: inicia com um "prefácio" escrito por um rapaz, que
é filho da dona da hospedaria em que o protagonista mora. Neste
"prefácio" há uma introdução, onde a personalidade do protagonista é
revelada através da observação de um terceiro. O protagonista é Harry Haller, uma pessoa
enigmática, muito culta, com hábitos estranhos, que se auto denomina “Lobo da
Estepe”.
Em seguida, Haller passa a ser o
narrador da sua história revelando-se uma pessoa em crise, em conflito interior
e também exterior, com problemas de relacionamento com a sociedade, mas, ao
encontrar um desconhecido na rua, que lhe entrega um pequeno livro sobre o “Lobo
da Estepe”, uma obra que pretende narrar a sua própria vida. este livro traz o
conceito da personalidade do “Lobo da Estepe” fragmentada, formada por um
número ilimitado de almas.
Seguiu-se a cena do jantar em
casa de um conhecido. Um colega o reconhece na rua e o convida para um jantar
na casa dele com sua esposa. Haller aceita o convite a contragosto,
arrepende-se ter aceito, arruma-se mal-humorado e vai. Ao chegar chama-lhe atenção
um retrato de Goethe completamente em desacordo com o que ele acreditava ser a
personalidade do poeta. Ao mesmo tempo o anfitrião mostrava-se contrafeito com
um artigo que lera em um periódico, considerando o autor um estúpido. Ora, o
autor era o próprio Haller. O convidado fica completamente insatisfeito com a
situação e, quando a esposa do anfitrião chega à sala, Haller explode expondo
sua insatisfação com o retrato de Goethe, o que ofende a esposa do colega, como
também se declara o autor do artigo que tanto desagradara o colega e retira-se
completamente fora si.
Depois desse episódio, a crise de
Haller aprofunda-se levando-o à conclusão que deve tirar sua própria vida,
usando da navalha de barbear. Ao mesmo tempo que esta decisão o tranquiliza,
também lhe causa horror, pois teme o processo em si. Então ele sai e anda de
bar em bar embebedando-se com medo de voltar à casa onde a navalha lhe espera.
Neste estado de angústia e
desespero ele entra numa casa noturna onde é recebido amistosamente por uma
mulher misteriosa, que aparenta saber tudo o que ele sente, todo seu desespero
e, mais importante, mostra-se como a solução para os seus problemas. Ela o
convida para dançar, mas ele não sabe dançar. Ela, então, se compromete em
ensinar-lhe dança e também em ajudá-lo a superar esse momento de completo
desespero, através da paixão que ele lhe devotará. O pagamento ela diria
depois, naquele momento era necessário que ele dormisse. Haller vai até um
quarto e dorme.
Harry desperta tarde no dia
seguinte, vai para a hospedaria na expectativa de encontrar-se com a mulher
misteriosa. Marcaram um encontro. Nesse encontro a mulher pede para ele
adivinhar seu nome. Ele olha para a face da mulher e vê traços de um amigo de
infância, chamado Hermann e identifica a mulher como Hermínia, nome que é
aceito por ela, não ficando claro se era mesmo seu nome. Hermínia impõe
condições para eles serem amigos: Haller deve obedecê-la sem pestanejar. Se ele
a obedecer, ela garante que ele vai se apaixonar por ela e, depois disso
acontecer, ele deverá matá-la.
Ato contínuo, os dois vão a uma
loja e compram um gramofone e discos com músicas da moda. Haller aprende o foxtrote. No dia seguinte, Hermínia determina que ele
vá até uma casa noturna para dançar. Lá, Haller conhece Maria e eles passam a
ter um relacionamento sexual. Maria não esconde que se relaciona com outros
homens, assim como Hermína também, o que Haller aceita.
Num baile dançante Hermínia
apresenta um amigo, o saxofonista Pablo.
Haller fica encantado com o rapaz.
Pablo apresenta Haller à música popular, coisa que o Lobo da Estepe tem
verdadeira ojeriza. Ao questionar Pablo, sobre o motivo que ele considera tocar
música popular, uma arte “menor”, em vez de tocar a "verdadeira "
música (Mozart, Beethoven, Bach, Haendel). Inicialmente o rapaz não dá
importância ao questionamento do velho professor, mas depois Pablo diz que o
que o move a fazer música é afetar as pessoas, que ele gosta do frenesi que a
música causa nas pessoas, fazendo-as dançar e cantar com ele. Pablo também
apresenta as drogas para Haller, que passa a consumir rapé com cocaína.
Haller passa por um período de
grande felicidade e estabilidade emocional. A vida agora é mais suportável.
todo o movimento do romance se direciona para um baile a fantasia, para o qual
Haller se arruma ansiosamente. Ao chegar no Baile, Haller fica um pouco
perdido. Primeiro ele encontra Maria, que se despede dele. Depois ele encontra
seu velho amigo de infância, o Hermann, mas ele não havia envelhecido. Logo ele
percebe se trata de Hermínia em trajes masculinos. Os dois circulam pelo baile,
mas não podem dançar um com o outro, pois seria socialmente inaceitável.
Hermínia dança com várias mulheres flertando com elas. Haller também dança com
outras mulheres, até que chega um momento em que Hermínia some. O baile já se direciona para o fim. Neste
momento Hermínia reaparece belíssima em um traje feminino, neste ponto o Lobo
da Estepe está completamente apaixonado por Hermínia.
O baile acaba e Pablo vem se
juntar ao casal. Ele os guia para um local: Teatro Mágico. Lá ele oferece uma
beberagem para os dois, bebida esta que recupera as energias dos dois amantes.
Pablo então separa o casal, Hermínia sai por uma porta e Haller entra em outra.
Na verdade, é um corredor com várias portas com inscrições comunicando o que
vai ser encontrado em cada porta.
Haller passa a experimentar
várias portas. Primeiro ele entra numa porta onde participa de uma guerra
contra as máquinas, particularmente os carros. Depois ele entra numa porta onde
pode ter a mulher que desejar; neste cômodo, ele recupera sua juventude e
conseguindo se reencontrar com Rosa, seu primeiro amor, corrigindo o erro que
cometera no passado em não se declarar à menina. Depois ele entra em um
ambiente de um enxadrista que propõe, através do jogo, a representação das
infinitas almas que Haller abriga dentro de si, cada uma das suas
personalidades é separada em peças vivas de xadrez; ao jogar com as peças
Haller revive os momentos vividos e conserta equívocos cometidos, depois de
jogar ele simplesmente guarda as peças no bolso reunindo sua personalidade
esquizofrênica numa só. Noutra porta ele encontra com Mozart, reconhecível pelo
seu riso (teria essa característica do Mozart hesseano influenciado o filme “Amadeus”?),
neste cômodo, Mozart mostra que Haller não devia levar tudo tão a sério e
mostra os grandes artistas carregando nas costas o peso daquilo que a sociedade
esperava deles. Na última porta que Harry acessa, encontra Hermínia e Pablo nus
dormindo juntos exaustos depois do amor; Haller entende que sua missão e crava
uma faca no coração de Hermínia, que acorda assustada com a dor, mas logo
falece; Pablo simplesmente levanta-se e vai embora, lamentando que Haller não
tenha absorvido os ensinamentos.
O romance dirige-se para uma
conclusão, onde o assassino não é punido, mas agraciado com tudo que aconteceu
nos últimos tempos, reconciliado com seu passado e com suas múltiplas
personalidades. Lopes (2021) considera que o romance não tem uma conclusão
final, o leitor é deixado com incertezas sobre a situação da personagem
principal após os acontecimentos.
Trata-se de um romance polifônico
(cf. Roman, 1992-93), pois encontramos narrativas derivadas de personagens
diferentes e independentes, como o “prefácio” escrito pelo filho da dona da
Pensão onde Haller morava, o desconhecido autor do “Tratado do lobo da estepe”
e o longo texto do desenvolvimento psicológico e Haller até o assassinato de
Hermínia. Lopes (2021), encaixa do romance como uma mistura de realismo e
literatura fantástica, mas que quando foi lançado não foi percebido assim pelos
críticos contemporâneos, sendo criticado por ser um texto retrógrado e mais
relacionado a um neoromantismo (cf. Schärft, 2004 apud Lopes 2001).
Outro elemento importante para a
compreensão do romance é o compromisso do autor com o romance de formação (Bildungsroman),
a trajetória de Haller é claramente um caminho para o auto-conhecimento, no que
os estudiosos concordam (cf. Swalles apud Lopes, 2021). Quando Pablo viabiliza o
acesso do protagonista ao “Teatro Mágico”, Haller passa a trabalhar psicologicamente
com seus conflitos e promove a integração de suas múltiplas personalidades. Na
cultura pop, o melhor paralelo com o Teatro Mágico é a Holosuíte da série
StarTrek a nova geração, onde as personagens podem viver realidades
alternativas geradas por computador.
Haller vive um conflito entre a cultura
e a selvageria. Ele é ao mesmo tempo uma pessoa culta, um professor, um
intelectual, amante das artes, principalmente da música germânica barroca
(Bach, Haendel), clássica (Mozart e Beethoven) e romântica (Beethoven e
Wagner), cujas obras são repetidamente citadas; como também sua admiração por
Goethe. Por outro lado, esta personalidade culta é confrontada com ânsias de
liberdade, de violência e de aversão ao convívio social. Em crise, o “Lobo”
aflora, no catastrófico jantar na casa do colega e no assassinato de Hermínia.
A vida burguesa é desprezada e
ridicularizada pelo “Lobo”. Harry, apesar de ser crítico da burguesia, vê nela
um lugar aprazível, do qual ele está excluído. É nesse sentido que podemos
entender a admiração que ele tem com o “pinheirinho” da vizinha na pensão em
que morava. O ambiente muito limpo e as plantas (Azaléia e o pinheirnho)
perfeitamente acondicionadas em seus vasos. Isso, de fato, revolta o Lobo, é a
insuportável prisão em que a burguesia coloca a natureza (cf. Lopes, 2021).
Maria e Hermínia são prostitutas:
é a conclusão óbvia. Mas Haller tem relações sexuais apenas com Maria, que foi
apresentada por Hermínia. Não está claro
que ele pagasse para ter sexo com Maria, a relação entre os dois ganha um
contorno de amizade, apesar da promiscuidade de Maria. Hermínia, também é promíscua,
mas dela se tem uma percepção diferente; principalmente por causa da sua
androginia. Muitos estudiosos consideram Hermínia uma representação do próprio
Haller (cf. Abelin& Ramicelli, 2014), que é, em última análise o próprio
autor Hermann Hesse, note-se que há uma concordância de nomes tanto da
personagem principal (Hesse/Haller; Hermann/Harry e Hermann/Hermínia),
revelando um homoerotismo observável em outras obras e Hesse (e.g. Damian),
levando a interpretar o assassinato de Hermínia como um sufocamento dessa
tendência erótica do eu-lírico, como uma última personalidade a ser integrada à
psique doentia de Haller.
Referências
Abelin, Bruna; Ramicelli, Maria. O lobo da Estepe e a
representação do homem do futuro. Revista Colineares, n. 1 , v. 2, p. 97-108,
2014.
Hesse, Hermann. O lobo da Estepe. trad. Ivo Barroso. 21a.
Ed. Rio de Janeiro: Record, 1989 [1927].
Lopes, Juliana. Modernidade e indeterminação em “O lobo da
estepe”. Pandaemonium, v. 24, n. 43, p.
139-166, 2021.
Roman, Arthur. O conceito de polifonia em Bakhtin - o
trajeto polifónico de uma metáfora. Letras, n.41-42, p. 207-220.1992-1993.

