16 julho 2026

O lobo da estepe de Hesse

 

“LOBO DA ESTEPE” de Hermann Hesse

Flávio França

 

 

Este foi o livro que alçou nome de Hermann Hesse como um dos principais escritores do século XX. Ele tem uma escrita complexa: inicia com um "prefácio" escrito por um rapaz, que é filho da dona da hospedaria em que o protagonista mora. Neste "prefácio" há uma introdução, onde a personalidade do protagonista é revelada através da observação de um terceiro.  O protagonista é Harry Haller, uma pessoa enigmática, muito culta, com hábitos estranhos, que se auto denomina “Lobo da Estepe”.

Em seguida, Haller passa a ser o narrador da sua história revelando-se uma pessoa em crise, em conflito interior e também exterior, com problemas de relacionamento com a sociedade, mas, ao encontrar um desconhecido na rua, que lhe entrega um pequeno livro sobre o “Lobo da Estepe”, uma obra que pretende narrar a sua própria vida. este livro traz o conceito da personalidade do “Lobo da Estepe” fragmentada, formada por um número ilimitado de almas.

Seguiu-se a cena do jantar em casa de um conhecido. Um colega o reconhece na rua e o convida para um jantar na casa dele com sua esposa. Haller aceita o convite a contragosto, arrepende-se ter aceito, arruma-se mal-humorado e vai. Ao chegar chama-lhe atenção um retrato de Goethe completamente em desacordo com o que ele acreditava ser a personalidade do poeta. Ao mesmo tempo o anfitrião mostrava-se contrafeito com um artigo que lera em um periódico, considerando o autor um estúpido. Ora, o autor era o próprio Haller. O convidado fica completamente insatisfeito com a situação e, quando a esposa do anfitrião chega à sala, Haller explode expondo sua insatisfação com o retrato de Goethe, o que ofende a esposa do colega, como também se declara o autor do artigo que tanto desagradara o colega e retira-se completamente fora si.  

Depois desse episódio, a crise de Haller aprofunda-se levando-o à conclusão que deve tirar sua própria vida, usando da navalha de barbear. Ao mesmo tempo que esta decisão o tranquiliza, também lhe causa horror, pois teme o processo em si. Então ele sai e anda de bar em bar embebedando-se com medo de voltar à casa onde a navalha lhe espera.

Neste estado de angústia e desespero ele entra numa casa noturna onde é recebido amistosamente por uma mulher misteriosa, que aparenta saber tudo o que ele sente, todo seu desespero e, mais importante, mostra-se como a solução para os seus problemas. Ela o convida para dançar, mas ele não sabe dançar. Ela, então, se compromete em ensinar-lhe dança e também em ajudá-lo a superar esse momento de completo desespero, através da paixão que ele lhe devotará. O pagamento ela diria depois, naquele momento era necessário que ele dormisse. Haller vai até um quarto e dorme.

Harry desperta tarde no dia seguinte, vai para a hospedaria na expectativa de encontrar-se com a mulher misteriosa. Marcaram um encontro. Nesse encontro a mulher pede para ele adivinhar seu nome. Ele olha para a face da mulher e vê traços de um amigo de infância, chamado Hermann e identifica a mulher como Hermínia, nome que é aceito por ela, não ficando claro se era mesmo seu nome. Hermínia impõe condições para eles serem amigos: Haller deve obedecê-la sem pestanejar. Se ele a obedecer, ela garante que ele vai se apaixonar por ela e, depois disso acontecer, ele deverá matá-la.

Ato contínuo, os dois vão a uma loja e compram um gramofone e discos com músicas da moda.  Haller aprende o foxtrote.  No dia seguinte, Hermínia determina que ele vá até uma casa noturna para dançar. Lá, Haller conhece Maria e eles passam a ter um relacionamento sexual. Maria não esconde que se relaciona com outros homens, assim como Hermína também, o que Haller aceita.

Num baile dançante Hermínia apresenta um amigo, o saxofonista Pablo.  Haller fica encantado com o rapaz.  Pablo apresenta Haller à música popular, coisa que o Lobo da Estepe tem verdadeira ojeriza. Ao questionar Pablo, sobre o motivo que ele considera tocar música popular, uma arte “menor”, em vez de tocar a "verdadeira " música (Mozart, Beethoven, Bach, Haendel). Inicialmente o rapaz não dá importância ao questionamento do velho professor, mas depois Pablo diz que o que o move a fazer música é afetar as pessoas, que ele gosta do frenesi que a música causa nas pessoas, fazendo-as dançar e cantar com ele. Pablo também apresenta as drogas para Haller, que passa a consumir rapé com cocaína.

Haller passa por um período de grande felicidade e estabilidade emocional. A vida agora é mais suportável. todo o movimento do romance se direciona para um baile a fantasia, para o qual Haller se arruma ansiosamente. Ao chegar no Baile, Haller fica um pouco perdido. Primeiro ele encontra Maria, que se despede dele. Depois ele encontra seu velho amigo de infância, o Hermann, mas ele não havia envelhecido. Logo ele percebe se trata de Hermínia em trajes masculinos. Os dois circulam pelo baile, mas não podem dançar um com o outro, pois seria socialmente inaceitável. Hermínia dança com várias mulheres flertando com elas. Haller também dança com outras mulheres, até que chega um momento em que Hermínia some.  O baile já se direciona para o fim. Neste momento Hermínia reaparece belíssima em um traje feminino, neste ponto o Lobo da Estepe está completamente apaixonado por Hermínia.

O baile acaba e Pablo vem se juntar ao casal. Ele os guia para um local: Teatro Mágico. Lá ele oferece uma beberagem para os dois, bebida esta que recupera as energias dos dois amantes. Pablo então separa o casal, Hermínia sai por uma porta e Haller entra em outra. Na verdade, é um corredor com várias portas com inscrições comunicando o que vai ser encontrado em cada porta.

Haller passa a experimentar várias portas. Primeiro ele entra numa porta onde participa de uma guerra contra as máquinas, particularmente os carros. Depois ele entra numa porta onde pode ter a mulher que desejar; neste cômodo, ele recupera sua juventude e conseguindo se reencontrar com Rosa, seu primeiro amor, corrigindo o erro que cometera no passado em não se declarar à menina. Depois ele entra em um ambiente de um enxadrista que propõe, através do jogo, a representação das infinitas almas que Haller abriga dentro de si, cada uma das suas personalidades é separada em peças vivas de xadrez; ao jogar com as peças Haller revive os momentos vividos e conserta equívocos cometidos, depois de jogar ele simplesmente guarda as peças no bolso reunindo sua personalidade esquizofrênica numa só. Noutra porta ele encontra com Mozart, reconhecível pelo seu riso (teria essa característica do Mozart hesseano influenciado o filme “Amadeus”?), neste cômodo, Mozart mostra que Haller não devia levar tudo tão a sério e mostra os grandes artistas carregando nas costas o peso daquilo que a sociedade esperava deles. Na última porta que Harry acessa, encontra Hermínia e Pablo nus dormindo juntos exaustos depois do amor; Haller entende que sua missão e crava uma faca no coração de Hermínia, que acorda assustada com a dor, mas logo falece; Pablo simplesmente levanta-se e vai embora, lamentando que Haller não tenha absorvido os ensinamentos.

O romance dirige-se para uma conclusão, onde o assassino não é punido, mas agraciado com tudo que aconteceu nos últimos tempos, reconciliado com seu passado e com suas múltiplas personalidades. Lopes (2021) considera que o romance não tem uma conclusão final, o leitor é deixado com incertezas sobre a situação da personagem principal após os acontecimentos.

Trata-se de um romance polifônico (cf. Roman, 1992-93), pois encontramos narrativas derivadas de personagens diferentes e independentes, como o “prefácio” escrito pelo filho da dona da Pensão onde Haller morava, o desconhecido autor do “Tratado do lobo da estepe” e o longo texto do desenvolvimento psicológico e Haller até o assassinato de Hermínia. Lopes (2021), encaixa do romance como uma mistura de realismo e literatura fantástica, mas que quando foi lançado não foi percebido assim pelos críticos contemporâneos, sendo criticado por ser um texto retrógrado e mais relacionado a um neoromantismo (cf. Schärft, 2004 apud Lopes 2001).

Outro elemento importante para a compreensão do romance é o compromisso do autor com o romance de formação (Bildungsroman), a trajetória de Haller é claramente um caminho para o auto-conhecimento, no que os estudiosos concordam (cf. Swalles apud Lopes, 2021). Quando Pablo viabiliza o acesso do protagonista ao “Teatro Mágico”, Haller passa a trabalhar psicologicamente com seus conflitos e promove a integração de suas múltiplas personalidades. Na cultura pop, o melhor paralelo com o Teatro Mágico é a Holosuíte da série StarTrek a nova geração, onde as personagens podem viver realidades alternativas geradas por computador.

Haller vive um conflito entre a cultura e a selvageria. Ele é ao mesmo tempo uma pessoa culta, um professor, um intelectual, amante das artes, principalmente da música germânica barroca (Bach, Haendel), clássica (Mozart e Beethoven) e romântica (Beethoven e Wagner), cujas obras são repetidamente citadas; como também sua admiração por Goethe. Por outro lado, esta personalidade culta é confrontada com ânsias de liberdade, de violência e de aversão ao convívio social. Em crise, o “Lobo” aflora, no catastrófico jantar na casa do colega e no assassinato de Hermínia.

A vida burguesa é desprezada e ridicularizada pelo “Lobo”. Harry, apesar de ser crítico da burguesia, vê nela um lugar aprazível, do qual ele está excluído. É nesse sentido que podemos entender a admiração que ele tem com o “pinheirinho” da vizinha na pensão em que morava. O ambiente muito limpo e as plantas (Azaléia e o pinheirnho) perfeitamente acondicionadas em seus vasos. Isso, de fato, revolta o Lobo, é a insuportável prisão em que a burguesia coloca a natureza (cf. Lopes, 2021).

Maria e Hermínia são prostitutas: é a conclusão óbvia. Mas Haller tem relações sexuais apenas com Maria, que foi apresentada por Hermínia.  Não está claro que ele pagasse para ter sexo com Maria, a relação entre os dois ganha um contorno de amizade, apesar da promiscuidade de Maria. Hermínia, também é promíscua, mas dela se tem uma percepção diferente; principalmente por causa da sua androginia. Muitos estudiosos consideram Hermínia uma representação do próprio Haller (cf. Abelin& Ramicelli, 2014), que é, em última análise o próprio autor Hermann Hesse, note-se que há uma concordância de nomes tanto da personagem principal (Hesse/Haller; Hermann/Harry e Hermann/Hermínia), revelando um homoerotismo observável em outras obras e Hesse (e.g. Damian), levando a interpretar o assassinato de Hermínia como um sufocamento dessa tendência erótica do eu-lírico, como uma última personalidade a ser integrada à psique doentia de Haller.

Referências

Abelin, Bruna; Ramicelli, Maria. O lobo da Estepe e a representação do homem do futuro. Revista Colineares, n. 1 , v. 2, p. 97-108, 2014.

Hesse, Hermann. O lobo da Estepe. trad. Ivo Barroso. 21a. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1989 [1927].

Lopes, Juliana. Modernidade e indeterminação em “O lobo da estepe”. Pandaemonium, v. 24, n. 43,  p. 139-166, 2021.

Roman, Arthur. O conceito de polifonia em Bakhtin - o trajeto polifónico de uma metáfora. Letras, n.41-42, p. 207-220.1992-1993.