24 outubro 2026

Nada de Novo no Front de Remarque

 

“Nada de novo no front” de Erich M. Remarque

Flávio França



O romance originou-se de anotações que Erich Maria Remarque (antes E.M. Kramer, cf. Souza e Freitas, 2012) fez durante sua participação na Primeira Grande Guerra, foi publicado inicialmente como folhetim no periódico Vossiche Zeitung em 1928, logrando publicação em livro apenas em 1929.

O romance traz a história de Paul Bäumer, na sua trajetória de quase três anos combatendo no front ocidental (Westen) do exército alemão na França, durante a primeira guerra mundial. O jovem Paul foi para guerra entusiasmado com seus colegas de escola, estimulado pelos ensinamentos do professor Kantorek, que exaltava a defesa da pátria. Mas o que ele encontra no front é a violência, a morte e o descaso com os combatentes por parte das autoridades.

A responsabilidade de Kantorek é imediatamente generalizada pelo autor, pois existem vários “Kantoreks” na Alemanha da época. Para Guevara e Jaeckel (2020), Kantorek “simboliza como a guerra conduz a um esvaziamento de sentido existencial que corrói aos poucos as noções de civilidade que as instituições formadoras do indivíduo sustentam e esgota a crença de que existe um papel social importante em cada autoridade que exerce influência.”

Os ataques são descritos como ações anárquicas, onde os soldados apenas queriam salvar as próprias vidas, muitas vezes sem saber para que lado estavam indo. Isso em meio às explosões de granada e saraivada de tiros de metralhadoras. Mesmo tentando apenas não morrer, Paul se vê obrigado a matar. A vítima, um soldado francês, um tipógrafo, causa grande impressão no jovem combatente. Individualmente, os militares não apresentam nenhuma raiva dos “inimigos”, não se consideram ofendidos pelo estado francês ou inglês, fazendo toda ação no campo de batalha apenas uma desesperada luta pela sobrevivência.

A reação sensível de Paul diante da morte do inimigo indica uma perspectiva que a moralidade do mundo, afundado na barbárie da guerra, pode ser restabelecida por estes mesmos indivíduos que naquele momento se enfrentam e se matam (cf. Guevara e Jaeckel, 2020)

A escassez de alimento é uma constante, os soldados são frequentemente forçados a confiscar animais das localidades arrasadas e abandonadas, gansos e porcos são prontamente devorados pelos combatentes sempre famintos. Durante uma licença, Paul percebe que a população civil não tem ideia do que acontece no campo de combate, acreditam na vitória, mesmo passando por dificuldades de acesso aos recursos básicos (alimentos, serviços médicos).

Nesta licença, Paul encontra a mãe debilitada pelo câncer, representando a nação alemã como um todo. Enquanto que a mãe encontra-se debilitada sendo lentamente carcomida por dentro, a mesma coisa acontece com a Alemanha, cuja sociedade encontra-se cambaleante contaminada pela esperança infundada de uma vitória na guerra, mas que na verdade resultará em grande desespero para população após o conflito, possibilitando o crescimento do nacional socialismo que vai destruir o país no futuro. Os elementos da futura destruição germânica estão ali como um câncer.

A falta de alimento atinge também os adversários, ao encontrar um grupo moças francesas, estas concedem favores sexuais em troca de alimento trazidos pelos militares. O episódio com as francesas mostra mais que o simples desejo sexual, que podia muito bem ser saciados nos bordeis, mas há também uma idealização romântica para distraí-los da violência da guerra; esta passagem romântica é muito inconsistente com os relatos das brutalidades cometidas pelo exercido alemão na primeira guerra (cf. Rezende, 2023).

Os ferimentos, mutilações e mortes são frequentemente descritos com crueza pelo narrador. Amputações dramáticas, falta de material médico, médicos inescrupulosos usando os feridos como cobaia, a ação displicente das enfermeiras. Os profissionais de saúde desenvolvem uma frieza chocante, devido à necessidade de liberar espaços e atender mais e mais feridos. Tal capacidade dos agentes de saúde durante grandes conflitos é muito relatada pelos pacientes, como registrado na guerra do Paraguai (cf. Barbosa, 2018).

Todos os entusiasmados estudantes morrem durante a guerra, inclusive o narrador, Paul Bäumer, exceto seu amigo Albert Kropp, que ao ter a perna amputada retorna para casa com uma prótese. Outro fim trágico é o do colega Tjaden, um camponês que se comove com a morte das montarias durante um ataque, ao encontrar uma cerejeira florida, sente irresistível necessidade de retornar à sua fazenda e deserda, contudo ele é capturado tentando voltar para Alemanha e não se tem mais notícias dele: certamente foi fuzilado. A morte de Katczinsky é dramática, quando o amigo foi ferido, Paul o carrega nas costas até um posto médico, mas no percurso um fragmento de granada atinge Kat na cabeça, o que só percebido por Paul quando o chega no posto médico e o enfermeiro comunica que o amigo está morto.

Paul morre em um dia tranquilo no front. Ele é atingido na cabeça e cai morto instantaneamente, guardando na morte uma expressão tranquila, mas seu destino não altera o comunicado oficial daquele dia, que expressava a tranquilidade no front ocidental, o que gera o título: “Im Westen nichts neues”, literalmente “nada novo no oeste”. Destacando, também a displicência com que os meios de comunicação tratavam a guerra, noticiando apenas as grandes batalhas, sem se importar com as mortes individuais (cf. Guevara e Jaeckel, 2020).

A recepção de “Nada de novo no Front” foi muito intensa e confusa. A crítica esquerdista reclama da falta de uma posição política do autor durante o correr do texto, ao passo que a crítica de direita reclama do excessivo pacifismo inconsistente com a visão adotada na época (c.f Rezende, 2023). De qualquer forma, o romance fez um estrondoso sucesso promovendo o interesse e a valorização literária do evento (cf. Sousa e Freitas, 2012).

Apesar do autor afirmar que seu trabalho não é autobiográfico, muitos estudiosos o consideram assim. Para Sousa e Freitas (2012) o narrador do romance é autodiegético pois “o autor se utiliza da personagem principal para relatar experiências por ele vividas.”. A impressão que o texto é autobiográfico, vem também da narrativa em primeira pessoa, que só passa para terceira pessoa quando o narrador comunica que a morte de Paul não alterou em nada a “tranquilidade” vivida naquele momento no front.

 

Referências

Barbosa, Janyne. Uma guerra sangrenta, epidêmica e doente: espaços de cura e cotidiano médico na guerra do Paraguai(1864-1870). Dissertação (Mestrado). João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2018.

Guevara, Larissa; Jaeckel Volker. Nada de novo no front: reflexões da grande guerra. Revista Eletrônica Literatura e Autoritarismo,  nº 24, p. 15-24, 2020.

Remarque, Erich. Nada de novo no front. Trad. Helen Rumjanek. São Paulo: Abril Cultural, 1981 [1928].

Rezende, Leonardo. Entre Bäumer, Remarque e Milestone: apontamentos acerca de nada de novo no front. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Uberlândia, 2023.

Sousa, Dolores; Freitas, Talitta. Nada de Novo no Front e Tambores na Noite: a Alemanha esfacelada sob os olhos de Erich Remarque e Bertolt Brecht. OPSIS, v. 12, n. 1, p. 346-360, 2012