Nada de Novo no Front de Remarque
“Nada
de novo no front” de Erich M. Remarque
Flávio França
O
romance originou-se de anotações que Erich Maria Remarque (antes E.M. Kramer,
cf. Souza e Freitas, 2012) fez durante sua participação na Primeira Grande
Guerra, foi publicado inicialmente como folhetim no periódico Vossiche Zeitung
em 1928, logrando publicação em livro apenas em 1929.
O
romance traz a história de Paul Bäumer, na sua trajetória de quase três anos
combatendo no front ocidental (Westen) do exército alemão na França,
durante a primeira guerra mundial. O jovem Paul foi para guerra entusiasmado
com seus colegas de escola, estimulado pelos ensinamentos do professor Kantorek,
que exaltava a defesa da pátria. Mas o que ele encontra no front é a violência,
a morte e o descaso com os combatentes por parte das autoridades.
A
responsabilidade de Kantorek é imediatamente generalizada pelo autor, pois
existem vários “Kantoreks” na Alemanha da época. Para Guevara e Jaeckel (2020),
Kantorek “simboliza como a guerra conduz a um esvaziamento de sentido
existencial que corrói aos poucos as noções de civilidade que as instituições
formadoras do indivíduo sustentam e esgota a crença de que existe um papel
social importante em cada autoridade que exerce influência.”
Os
ataques são descritos como ações anárquicas, onde os soldados apenas queriam
salvar as próprias vidas, muitas vezes sem saber para que lado estavam indo.
Isso em meio às explosões de granada e saraivada de tiros de metralhadoras.
Mesmo tentando apenas não morrer, Paul se vê obrigado a matar. A vítima, um soldado
francês, um tipógrafo, causa grande impressão no jovem combatente.
Individualmente, os militares não apresentam nenhuma raiva dos “inimigos”, não
se consideram ofendidos pelo estado francês ou inglês, fazendo toda ação no
campo de batalha apenas uma desesperada luta pela sobrevivência.
A
reação sensível de Paul diante da morte do inimigo indica uma perspectiva que a
moralidade do mundo, afundado na barbárie da guerra, pode ser restabelecida por
estes mesmos indivíduos que naquele momento se enfrentam e se matam (cf.
Guevara e Jaeckel, 2020)
A
escassez de alimento é uma constante, os soldados são frequentemente forçados a
confiscar animais das localidades arrasadas e abandonadas, gansos e porcos são
prontamente devorados pelos combatentes sempre famintos. Durante uma licença,
Paul percebe que a população civil não tem ideia do que acontece no campo de
combate, acreditam na vitória, mesmo passando por dificuldades de acesso aos
recursos básicos (alimentos, serviços médicos).
Nesta
licença, Paul encontra a mãe debilitada pelo câncer, representando a nação
alemã como um todo. Enquanto que a mãe encontra-se debilitada sendo lentamente
carcomida por dentro, a mesma coisa acontece com a Alemanha, cuja sociedade
encontra-se cambaleante contaminada pela esperança infundada de uma vitória na
guerra, mas que na verdade resultará em grande desespero para população após o
conflito, possibilitando o crescimento do nacional socialismo que vai destruir
o país no futuro. Os elementos da futura destruição germânica estão ali como um
câncer.
A
falta de alimento atinge também os adversários, ao encontrar um grupo moças
francesas, estas concedem favores sexuais em troca de alimento trazidos pelos
militares. O episódio com as francesas mostra mais que o simples desejo sexual,
que podia muito bem ser saciados nos bordeis, mas há também uma idealização
romântica para distraí-los da violência da guerra; esta passagem romântica é
muito inconsistente com os relatos das brutalidades cometidas pelo exercido
alemão na primeira guerra (cf. Rezende, 2023).
Os
ferimentos, mutilações e mortes são frequentemente descritos com crueza pelo
narrador. Amputações dramáticas, falta de material médico, médicos
inescrupulosos usando os feridos como cobaia, a ação displicente das
enfermeiras. Os profissionais de saúde desenvolvem uma frieza chocante, devido
à necessidade de liberar espaços e atender mais e mais feridos. Tal capacidade
dos agentes de saúde durante grandes conflitos é muito relatada pelos
pacientes, como registrado na guerra do Paraguai (cf. Barbosa, 2018).
Todos
os entusiasmados estudantes morrem durante a guerra, inclusive o narrador, Paul
Bäumer, exceto seu amigo Albert Kropp, que ao ter a perna amputada retorna para
casa com uma prótese. Outro fim trágico é o do colega Tjaden, um camponês que
se comove com a morte das montarias durante um ataque, ao encontrar uma
cerejeira florida, sente irresistível necessidade de retornar à sua fazenda e
deserda, contudo ele é capturado tentando voltar para Alemanha e não se tem
mais notícias dele: certamente foi fuzilado. A morte de Katczinsky é dramática,
quando o amigo foi ferido, Paul o carrega nas costas até um posto médico, mas
no percurso um fragmento de granada atinge Kat na cabeça, o que só percebido
por Paul quando o chega no posto médico e o enfermeiro comunica que o amigo
está morto.
Paul
morre em um dia tranquilo no front. Ele é atingido na cabeça e cai morto
instantaneamente, guardando na morte uma expressão tranquila, mas seu destino
não altera o comunicado oficial daquele dia, que expressava a tranquilidade no
front ocidental, o que gera o título: “Im Westen nichts neues”,
literalmente “nada novo no oeste”. Destacando, também a displicência com que os
meios de comunicação tratavam a guerra, noticiando apenas as grandes batalhas,
sem se importar com as mortes individuais (cf. Guevara e Jaeckel, 2020).
A
recepção de “Nada de novo no Front” foi muito intensa e confusa. A crítica
esquerdista reclama da falta de uma posição política do autor durante o correr
do texto, ao passo que a crítica de direita reclama do excessivo pacifismo
inconsistente com a visão adotada na época (c.f Rezende, 2023). De qualquer
forma, o romance fez um estrondoso sucesso promovendo o interesse e a
valorização literária do evento (cf. Sousa e Freitas, 2012).
Apesar
do autor afirmar que seu trabalho não é autobiográfico, muitos estudiosos o
consideram assim. Para Sousa e Freitas (2012) o narrador do romance é
autodiegético pois “o autor se utiliza da personagem principal para relatar
experiências por ele vividas.”. A impressão que o texto é autobiográfico, vem
também da narrativa em primeira pessoa, que só passa para terceira pessoa
quando o narrador comunica que a morte de Paul não alterou em nada a
“tranquilidade” vivida naquele momento no front.
Referências
Barbosa, Janyne. Uma
guerra sangrenta, epidêmica e doente: espaços de cura e cotidiano médico na
guerra do Paraguai(1864-1870). Dissertação (Mestrado). João Pessoa:
Universidade Federal da Paraíba, 2018.
Guevara, Larissa; Jaeckel
Volker. Nada de novo no front: reflexões da grande guerra. Revista Eletrônica
Literatura e Autoritarismo, nº 24, p.
15-24, 2020.
Remarque, Erich. Nada de
novo no front. Trad. Helen Rumjanek. São Paulo: Abril Cultural, 1981 [1928].
Rezende, Leonardo. Entre Bäumer,
Remarque e Milestone: apontamentos acerca de nada de novo no front. Dissertação
(Mestrado). Universidade Federal de Uberlândia, 2023.
Sousa, Dolores; Freitas, Talitta.
Nada de Novo no Front e Tambores na Noite: a Alemanha esfacelada sob os olhos
de Erich Remarque e Bertolt Brecht. OPSIS, v. 12, n. 1, p. 346-360, 2012


